Entrevista: Retorofoguetes retorna com nova formação e disco

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Retrofoguetes. Foto: Uanderson Brittes/Divulgação

Já fazia tempo que você não ouvia falar do Retrofoguetes, né? Sabemos. O negócio é que a banda teve uma dança das cadeiras, parou um pouquinho para umas férias e retoma a carreira com uma nova formação e com o disco Enigmascope Volume 1, que é inspirado em trilhas sonoras de filmes. O trio ficou para trás e agora o quarteto é formado pelos remanescentes Rex (bateria) e Morotó (guitarra); entraram o argentino Julio Moreno (guitarra) e o baixista Fábio Rocha. Sem delongas, fizemos uma entrevista com eles por e-mail e quem respondeu, foi o Rex.

Move That Jukebox: Meninos, não posso começar a entrevista sem perguntar isso, o que foi que aconteceu para a banda ter feito essa parada de sete anos? Quem brigou com quem? Afinal, vocês estavam bem estabelecidos, tocaram em vários festivais e têm prêmios.

Rex: Na verdade, foram sete anos sem gravar um disco novo, mas só ficamos mesmo sem tocar durante o ano de 2014. Depois do lançamento do ChaChaChá em 2009, tocamos nas principais capitais do país, principalmente nos festivais mais importantes da cenário alternativo. Iniciamos a pré-produção de um novo álbum, quando o trabalho foi interrompido em 2011 com a saída de CH da banda. Joe, que fundou os Retrofoguetes comigo e Morotó em 2002, voltou pra banda depois de deixar Pitty, mas ficou difícil levar o trabalho adiante, porque ele continua morando em São Paulo e nós em Salvador. Ele mesmo aconselhou a gente a trazer o Fábio para o trabalho. Descartamos o material composto com CH e, com a nova formação, iniciamos no ano passado o processo de composição de Enigmascope Volume 1.

Move That Jukebox: E por que voltar agora?

Rex: Sabíamos da importância de lançarmos um novo disco, para que a banda continuasse a rodar. Tínhamos consciência de que podíamos fazer um trabalho ainda melhor que os anteriores. Estamos bem confiantes, porque acreditamos ter conseguido um resultado incrível com esse novo disco.

Move That Jukebox:  A banda está de volta com quatro integrantes, o que muda já que antes vocês eram três?

Rex: A sonoridade da banda naturalmente mudou bastante. Fábio e Julio têm uma experiência bem diferente da nossa, são excelentes músicos, eles trouxeram novas abordagens, novos timbres pro trabalho e deram uma contribuição incrível na composição do repertório do disco. Acho que a maior diferença se dá pelo fato de termos agora duas guitarras na banda, isso possibilitou que o trabalho se tornasse mais rico em harmonia e também ritmicamente.

Move That Jukebox: Quando vocês lançaram o ChaChaChá, contaram numa entrevista que estavam começando a escutar muitas trilhas sonoras para compor o novo disco. Daí, chega agora o Enigmascope. Essa ideia ficou guardada assim por tanto tempo? Vocês chegaram a gravar antes de se separarem? Como foi esse processo para o terceiro álbum?

Rex: Nós sempre escutamos trilhas sonoras, a influência do cinema e o caráter imagético das nossas músicas fazem parte do conceito da banda desde o início. O que aconteceu é que nos aprofundamos ainda mais nesse conceito e resolvemos fazer desse disco a trilha de um filme de espionagem que obviamente só existe na nossa cabeça. Começamos o processo de composição em setembro do ano passado. Passávamos em média 18 horas semanais compondo juntos com violões, baixolão e eu tocando num catálogo telefônico com vassourinhas. Normalmente alguém trazia uma ideia de melodia ou uma levada e todos contribuíam com outras partes, outras soluções. Essa é a primeira vez que nós sentamos juntos para compor um disco. Essa experiência foi muito interessante e muito positiva para o grupo. Somos influenciados pela cultura pop de uma forma geral. Quadrinhos, livros de bolso, antigos seriados de TV e é claro, o cinema. Nos trabalhos anteriores, isso aparece de forma mais solta, menos conceitual. No Enigmascope, resolvemos tematizar o repertório. Nos anos de 1960, no auge da Guerra Fria, tivemos um boom dos filmes de espionagem, principalmente na Europa. Compositores como John Barry, Lalo Schifrin, Jerry Goldsmith, Henry Mancini e os italianos Ennio Morricone, Bruno Nicolai, Piero Piccioni, definiram o que viria ser chamado de spy jazz ou, de forma mais abrangente, spy music. Eles trouxeram para as trilhas o que era pop na época, jazz, rock, bossa nova, muzak, música latina, surf music, acrescentando doses de suspense, de tensão, romance e mistério às melodias e harmonias. O Enigmascope é quase um tributo ao gênero e a esses compositores. Compusemos os temas pensando em passagens de um filme e, da mesma forma que esses compositores, passeamos por vários gêneros musicais.

Move That Jukebox: Bem, vocês são uma banda instrumental, que sempre pensaram na parte imagética. Tanto que as influências de vocês não estão só na música, como nos quadrinhos e o cinema também. É muito comum que banda instrumentais usem outros artifícios, vamos colocar assim, para chamar atenção. Seja um figurino mais caprichado, coreografias, projeções, jogo de luz. O que funciona para o Retrofoguetes?

Rex: Pra gente sempre foi a música mesmo, mas sempre tivemos uma preocupação com a estética da banda, isso passa pelos cartazes, capas dos discos, os uniformes, tudo pra ambientar e reforçar o conceito do trabalho. Sou designer gráfico e ilustrador, tenho um estúdio de design, a Santo Design, e sempre estivemos à frente do visual da banda.

Move That Jukebox: Existe também algum plano de lançar imagens para as músicas de vocês? Vídeos ou quem sabe uma série de videoclipes, como fez Beyoncé no Lemonade?

Rex: Seria muito bacana que a trilha desse origem ao filme, seria a ordem inversa da coisa. O problema é que, mesmo com toda a tecnologia disponível, fazer vídeo com qualidade ainda é um bagulho muito caro.

Move That Jukebox: Por falar nisso, vocês estão lançando um CD. Qual a importância de hoje, como tantos serviços de streaming ainda lançar algo físico?

Rex: Temos ainda um apego grande a esse tipo de coisa, faz parte de nossa geração (somos todos de 1972, exceto Julio que já completou 51 anos). Achamos importante o contato com o disco físico, com o material gráfico. Sabemos que tudo tem se tornado cada vez mais digital e, não à toa, temos um contrato de distribuição digital com as principais plataformas. O disco físico virou um souvenir, um cartão de visitas, mas muita gente ainda curte comprar o bicho. Estamos também planejando uma prensagem em vinil até o fim do ano.

Move That Jukebox: Para finalizar, aquela pergunta, a música instrumental está muito bem consolidada hoje no país. No meio independente temos grandes nomes, como Pata de Elefante, Hurtmold e uma das bandas que mais está fazendo sucesso hoje saída da Bahia é a BaianaSystem, que tem um traço forte do instrumental também. Sendo assim, vocês ainda escutam perguntas como “Por que não colocar um vocalista”? Ou isso já são águas passadas?

Rex: A ideia foi fazer um som instrumental desde o início. Isso vem da nossa principal influência, a surf music, tradicionalmente instrumental. Somos pioneiros no rock instrumental na Bahia, e hoje, temos bandas excelentes como a Vendo 147, a Tentrio e a Ivan Motoserra. Concorremos com o Pata, o Hurtmold e a Macaco Bong ao VMB, prêmio da MTV, na categoria “Melhor Banda Instrumental do Brasil”. São bandas incríveis de estilos completamente diferentes o que demonstra a riqueza do gênero no país. Sempre tivemos consciência de que esse era, sem dúvida, o caminho mais difícil, mas conseguimos criar um alcance e conquistar um reconhecimento pelo nosso trabalho que surpreende a gente até hoje. Somos felizes assim, sem vocalista.

Move That Jukebox. E a nossa pergunta padrão: Quais bandas movem a tua Jukebox ou o que você está escutando agora?

Rex: Tenho ouvido bastante um cara chamado Richard Hawley, um guitarrista e cantor inglês que fez parte do Pulp e tem uma carreira solo bem bacana. Ouço muito do mesmo, The Cramps, Stray Cats, Kraftwerk, Ramones, Sinatra, Bauhaus, Bowie, Elvis, jazz, rockabilly, surf music, new wave, punk rock, bossa nova e trilhas sonoras.

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