Entrevista: Thiago Pethit

O questionamento pré-adolescente veio tarde para Thiago Pethit – ou então a crise dos 30 bateu na porta do garoto antes do tempo, sem avisar. Quase de uma hora para a outra, o universo do teatro, em que viveu por quase 15 anos, já não agradava mais. Nascido e criado em uma família de artistas, o jeito foi correr para uma outra área não muito longe dali: a música.

Já existiam os flertes com o som, de alguma forma – foi através de seus poemas sonoros que Thiago fez seus primeiros contatos com Tiê, uma das responsáveis por empurrar o cara para a música. Mas o envolvimento do “Pethit Prince” só foi se tornar concreto mais tarde, pouco menos de dois anos atrás, quando lançou seu primeiro EP. O objetivo era simples e muito pouco ambicioso: mostrar aos amigos a mudança de carreira e ver onde isso poderia chegar. Hoje, com 28 anos, um disco lançado e um VMB nas costas, não é difícil ver que Thiago Pethit chegou mais longe do que provavelmente imaginou.

Foto: Leandro Ribeiro

Você morou na Argentina há algum tempo. Quando foi isso?
Eu fui pra Buenos Aires em 2007, sozinho. Até então eu ainda trabalha com teatro, mas já estava ficando meio frustrado. Comecei a sentir que teatro é uma coisa que você faz só pras pessoas do meio, e eu não tinha a menor intenção de passar meses e meses ensaiando pra isso, perdendo todo um tempo de vida. Isso tudo começou a me deixar muito angustiado, era muito massacrante. Mais ou menos na mesma época eu comecei a fazer outras coisas como hobby pra ver no que ia dar… Fui dirigir o cabaré do Dudu [Tsuda] e da Tiê, que era um show que eles tinham. Fiquei um tempão trabalhando nisso, escolhendo o setlist com eles, montando o cenário… No meio disso acabei virando um personagem, comecei a ir nos ensaios, se faltava alguma voz eu entrava pra cantar junto com eles e tal. Mas o cabaré nunca estreou! Fiquei três meses nisso e aí, na véspera da apresentação, a Lei do Psiu fechou o lugar que íamos usar.

Nossa, meu mundo caiu. Fiquei muito deprimido. Foi aí que eu percebi que tava tudo errado… Saí do meu grupo de teatro, depois de sete anos, e decidi fazer outra coisa sem saber muito o que era. Eu brincava muito de fazer poesia sonora e resolvi que ia estudar literatura. Me matriculei num curso de um ano em Buenos Aires. Mas aí, um mês antes de ir pra lá, um amigo me escreveu falando: “Thiago, você não pensou em fazer música na Argentina?”. Ele me mandou o formulário de inscrição pra umas aulas num conservatório de música que era voltado pra repertório de tangos. Tinha muito canto, composição e um pouco de literatura e resolvi me inscrever. Acabei abandonando o curso de literatura e fiquei fazendo música por um ano inteiro! (Risos) No início de 2008, quando voltei pra São Paulo, eu já sabia que eu realmente queria fazer música.

E o teatro te bancava nessa época?
Sim, então foi meio que um tiro no pé. Comecei no teatro com nove anos de idade, por causa dos meus avós, e fiquei até os 24, sempre em companhias meio grandes. As vezes essas companhias tinham patrocínio de alguém ou então rolava algum edital, chegamos a ganhar duas vezes a Lei do Fomento. Eu pagava minhas contas e vivia bem, dava pra sair pra jantar. (risos)

Quando rolou a história do cabaré, eu pensei: “Como é que eu me meto completamente por diversão numa coisa, sem remuneração nenhuma, e fico mais pilhado do que já estive em toda a minha vida?” Eu estava super infeliz no teatro, não tinha muita diferença da minha situação pro clássico empresário que vive estressado e frustrado com a vida pra ganhar dinheiro.

Então o Dudu e a Tiê foram os responsáveis por te jogar no mundo da música. Quando surgiu Thiago Pethit, o músico?
Bom, passei um ano em Buenos Aires gastando enlouquecidamente todo o dinheiro que eu tinha guardado. Voltei pro Brasil da estaca zero, com um tiro no pé, porque uma hora o dinheiro acabou. Falei “Bem, não vai dar pra começar a trabalhar com música como se eu tivesse 18 anos de idade. Vou ter que me superar.” Aí eu decidi gravar um EP juntando todos os meus amigos, um pouco na intenção de dizer pra eles “Amigos, ó, to começando a trabalhar com música e o que eu sei fazer é isso. Interessa pra vocês?” O objetivo mesmo era montar uma banda ou alguma coisa assim, não tinha a intenção de uma carreira solo.

A Tiê sempre acompanhou bem de perto a sua carreira e continua muito próxima de você. Como vocês se conheceram?
A Tiê foi meio que a minha Caixinha de Pandora. Tivemos uma super afinidade durante os ensaios do cabaré, rolou uma identificação muito grande. A gente já meio que se paquerava virtualmente por MySpace, antes de descobrirmos que tínhamos amigos em comum, porque nossas páginas eram muito parecidas. Eu tinha lá os meus poemas sonoros, trocávamos fotos… Existia um flerte. Enquanto eu estava dirigindo o cabaré, ela estava fazendo um clipe e queria que eu participasse. Eu gostava do trabalho dela, ela gostava do meu e um dia ela pediu pra eu escrever uma letra pra ela gravar. Começamos a bolar um projeto pra essa música entrar em alguma coisa, daí acabou saindo um curta-metragem [03h17h, da Anna Penteado] que já foi até exibido, mas não ficou muito bem finalizado. A narrativa foi criada sem diálogo, só com as músicas dela e os meus poemas, tipo um musicalzinho de 15 minutos.

Há pouco tempo, vocês gravaram juntos mais uma vez. Eram dois covers de John Lennon, a convite do IG, em homenagem ao aniversário dele. Você gosta de fazer versões?
Sim, adoro! Covers são ótimos porque suas intenções ficam mais claras para o público. É quando as pessoas podem ver o que o Thiago Pethit pensa sobre música. É pra isso que eu toco Lady Gaga. Não veria muita graça em fazer um cover do Tom Waits, por exemplo, porque seria quase uma imitação. A não ser que eu fosse cantar com a minha voz de um jeito mais suave, mas isso muita gente também já fez, então continua sem graça. É legal quando você pega alguma música muito distante das suas composições e transforma em algo quase seu. É a sensação que eu tenho com a minha versão de Lady Gaga.

Falando em covers, você abriu o show do Nouvelle Vague no Circo Voador no início do ano. Todo mundo sabe da rejeição que a galera costuma ter com shows de abertura. Como foi lá?
Foi o show de abertura mais fácil que eu já fiz em toda a minha vida. Eu estava morrendo de medo porque já tinha feito duas aberturas, uma do Will Oldham [vulgo Bonnie “Prince” Billy] e outra do Jens Lekman, pr’aquele público indie paulista que a gente sabe que não é moleza. Banda de abertura entra pra fazer sala, como um aperitivo, e as vezes o público não tá afim de aperitivo. São shows sempre muito difíceis de fazer. Ainda tinha o agravante de ser no Rio, onde eu nunca tinha tocado, então eu não sabia se tinha público lá. Eu tava mega em pânico, até porque também era no Circo Voador, que é imenso. O foda dessas coisas é que são sempre umas situações que você fala: “Eu não to pronto pra isso, mas eu não posso recusar”. Mas nossa, foi muito fácil. O público foi muito receptivo… Eu comecei e não tinha uma alma lá dentro, daí fui batendo palminha com “Nightwalker” pelo menos até três pessoas aparecerem pra assistir. Em uns segundos o lugar encheu do nada e as pessoas ficaram lá, algumas até cantando as músicas. A noite foi incrível, fiquei super amigo da Karina Zeviani, a cantora brasileira do Nouvelle.

Você deu sorte, então, mas ainda rola muita ignorância de boa parte do público brasileiro com o produto nacional.
O público brasileiro é muito caipira, chega até a dar uma deprê. Há pouco tempo vi uns shows gringos aqui que não vale nem citar o nome, mas encontrei uma vocalista que era uma das coisas mais inanimadas da Terra. Era um robozinho cantando com arranjos muito fracos, mas o público aplaudia horrores, mesmo parecendo que nunca tinha ouvido falar da fulana. Nem lembro o nome da mulher agora, mas é uma dessas suecas que vieram recentemente. Se fosse uma cantora brasileira fazendo exatamente a mesma coisa, iam detonar tanto! É muito caipirismo, isso é foda.

E tudo isso acabou guiando pro VMB 2010, quando você ganhou o Aposta MTV. Você esperava ganhar?
Sinceramente, eu tinha certeza que não ganharia de jeito nenhum. Eu não sou uma banda, então se eu mesmo votasse em mim mesmo o tempo todo é óbvio que eu ia perder pra um grupo de cinco pessoas votando neles mesmos. E eu também já não tenho mais idade pra ficar votando sem parar. (risos)

E eu acho que o seu público também já passou dessa idade. Achava.
Ah, não dá pra saber. Desde que eu lancei o disco eu tenho tido cada vez menos noção de quem é meu público. Tem umas coisas também que você vai sacando nas viagens… Eu fiz um show pequeno em Curitiba, pra umas cinquenta pessoas, no Era Só o Que Faltava. Grande parte do público tinha mais de 30 anos, sendo que a maior parte disso podia ter até mais de 40. Foi a primeira vez que eu vi isso acontecer. Depois eu fui pra Recife, no Festival de Guaranhuns, e era um show lotado de adolescentes. Depois rolou pocket na Saraiva de lá e tinha só pré-adolescente. Não dá pra ter muita idéia do perfil…

E isso é bom, né? Sinal que as coisas cresceram bastante.
É, suponho que seja uma prova de que está indo tudo bem. É um dos únicos casos em que perder o controle é uma coisa boa, mas também é meio angustiante. Quando chega num momento importante, tipo o VMB, você pensa: “Ah, meu público não vai votar, não é esse o perfil…” Também tinham outros milhares de motivos na minha cabeça pra eu não ganhar. Eu sempre senti que o olhar de fora das pessoas com quem eu trabalho, principalmente na área de produção, é de que eu fico num meio de caminho. Existem as pessoas da MPB e as pessoas do indie, que são turmas completamente diferentes que se misturam aqui e acolá. Daí quem é da MPB olha pro meu trabalho e fala: “Ah, isso não tem brasilidade, esse cara canta em outras línguas e quando canta em português não tem firula, não tem metáfora… Isso é indie”. E quem é do indie fala: “É um som delicado, suave, não é uma banda…”, então é MPB. Então eu sempre fiquei em cima desse muro, e aí botei na cabeça que o público jovem que tava votando ia escolher o Apanhador Só porque eles são jovens, super novos-Los Hermanos e têm bastante apelo pop. Era o que parecia mais óbvio pra ganhar uma coisa dessas. Também tinha a Flora Matos, e os MCs tem toda essa coisa organizada na internet. O Unidade Imaginária também é mega jovem, quase colorida. Se bem que eu nem sei dizer o que é uma banda colorida – eu sei a cara que eles tem, mas não sei como é o som (risos). O The Name é uma banda total indie, então eles podiam contar com a força dos indies. E tinha eu, ali no meio. Fiquei sem nenhuma esperança de ganhar.

Não é positivo ficar nesse meio do caminho, então? É uma forma de somar dois grupos diferentes.
É meio positivo, sim. Eu até tenho essa intenção… Sempre me identifiquei com o meio do caminho, mas com duras penas. Sofro um bocadinho com isso.

Como foi na hora de receber o prêmio? O Parangolé que te entregou! (risos)
Eu não tava entendendo nada! O som era esquisitíssimo lá, já que era um evento pra TV. Não sabia nem quem era a pessoa que tava no palco, não conseguia ver a cara dele e nem peguei a apresentação de quem era. Daí passaram os vídeos dos indicados e depois disso ouvi ele falando “Thiago Pethit” [pronunciando o último T] e eu, não sei porque raios, achei que ele tava repetindo os nomes dos indicados. Uma amiga que tava do meu lado me segurou no braço e disse: “É VOCÊ!”. Achei que era piada, né, mas ela tava com uma cara tão branca… Eu fui pra premiação reclamando muito da vida, achando um saco ter que ir, então ninguém que tava comigo esperava que eu fosse ganhar. Quando eu entendi o que tava acontecendo, só conseguia olhar pro caminho até o palco e pensar em qual era o jeito mais rápido de chegar lá. Tive uma pequena parada cardíaca, até. As vezes meu coração bate fora do compasso naturalmente, não necessariamente em situações que eu fico nervoso, mas quando tem nervosismo envolvido fica mais fácil de acontecer. Teve um segundo “Wow!” que eu falei porque parou total, daí ele segurou um pouco e voltou a bater.

Parangolé e Thiago Pethit, hahaha

Você tem bastante afinidade com o mundo fashion. Já saiu em várias revistas de moda…

Não sei nem dizer como isso aconteceu. Tem umas questões muito factuais, também. Eu tenho muitos amigos que trabalham com moda em geral. O disco teve colaboração do Jackson Araújo, que trabalhou a vida inteira com moda e é muito respeitado no meio, então teve esse respaldo. No lançamento do disco a Glória Kalil foi a convite de dois conhecidos que trabalham com ela. Daí ela gostou e botou no blog dela, então teve todo um outro respaldo em cima disso. Depois fui convidado pra tocar em um desfile… Então acabou sendo uma sequência de acontecimentos.

Enquanto tentávamos marcar a entrevista, você falou de alguns problemas com datas por causa das gravações de um clipe.

Então, são dois clipes, na verdade. Se desenvolveram em três clipes, até. Eu ganhei um clipe da produtora do Heitor Dhalia, a Paranoid. Eles pediram para uma das diretoras de lá escolher dois vídeos para dirigir e ela quis fazer um meu e outro da Céu, que já deve estar quase pronto. Tem uma produção legal, um pequeno orçamento para fazer e tal. Esse vídeo era pra ser de “Vaudeville”, mas aí ela ficou com muita vontade de fazer “Não Se Vá” (que tem duas partes – uma gravada em Barcelona e outra que vai ser filmada aqui em São Paulo) e produzir alguma coisa de baixo orçamento para resolver de uma forma mais criativa. Esse provavelmente vai ser uma parceria dela com a Renata Chebel, que fez o “Mapa-Mundi”. No meio do caminho elas ficaram amigas, a Chebel começou a trabalhar na Paranoid… Enfim. Daí eu acho que esse outro vai ser “Sweet Funny Melody”. E aí tem o terceiro que é de uma menina que trabalha na MTV, a Livia Perini.

Frame do clipe de “Mapa-Mundi”

O que os seus pais pensam do Thiago músico?
Meus pais são muito legais. Primeiro porque eles foram jovens muito loucos, então eles têm uma visão do mundo bastante abrangente. Meu pai trabalhou com música por muito tempo… Quando ele era adolescente, ele cantava numa banda que era uma mistura de Roberto Carlos com Mutantes. Ele era bem hippie, barbão, mas meio romântico. Ele trabalhou muito tempo em rádio, entao ele sempre teve amigos da música. A gente tinha uma discoteca absurda lá em casa, de vinil mesmo, porque ele ganhava vários. Em toda noite de sexta-feira ele parava pra tomar uísque e fumar ouvindo uns vinís, daí eu ficava com ele. A gente ouvia os discos e ele ia me explicando as histórias das músicas, o que as letras diziam… Falava de como o Chico Buarque se referia à ditadura para não ser pego, depois me explicou dos Mutantes, da passeata contra as guitarras… São as minhas memórias musicais mais antigas. Minha mãe é psicóloga, de uma área toda cabeça aberta. Os dois são muito jovens até hoje, de certa maneira, e meu pai, nessa mesma época que eu comecei a me interessar por música, também foi voltando a se envolver. Ele começou a fazer música no computador, música eletrônica, e lançou um disco que saiu pela Tratore com o nome de CH2K. Tem um pouco dessa coisa de eu estar fazendo o que ele gostaria de ter feito. Os pais dele eram atores. Tinha artista plástico na familia, também. Meu pai me dá um mega suporte. Não dá pra viver de música, então eu preciso da ajuda dele em muitos momentos. Enquanto isso estiver dando certo, ele tá lá. Não sei como vai ser quando der errado… (risos)

Você cresceu no Studio SP, que também foi o berço de vários outros artistas – os Novos Paulistas, inclusive, cresceram todos ali. Existe um tipo de “sociedade” da casa?
É, rola uma “sociedade” do Studio SP, sim. O meu primeiro show foi lá, abrindo pro Will Oldham – a contragosto do Alê Youssef [dono do Studio SP], que fique bem claro. Ninguém sabia quem eu era. Minha assessora de imprensa sabia que ia rolar o Will e mostrou meu som pro Marcos Boffa, que era o produtor. Ele topou, mas o Alê ficou na dúvida: “Vocês tem certeza? Ele não é conhecido, né…” E nisso eu já conhecia ele pessoalmente, até, pra que fique claro que não tem nenhuma panelinha de amizade. Desde então ele tem sido um dos caras que mais me apoiam.

Da esquerda para a direita: Dudu Tsuda, Thiago Pethit, Tulipa Ruiz, Tiê e Tatá Aeroplano, os Novos Paulistas

Mas, mesmo assim, rola uma panelinha de modo geral…
Ah, como em todo lugar, eu acho. Como em muitos lugares em que eu não sou bem-vindo, inclusive! Isso é natural. O Alê tem uma casa que precisa ser paga, existe um público que frequenta o lugar e, por isso, ele precisa colocar lá as atrações que esse público quer assistir. Não acredito que ele goste de tudo que toque  lá e também não acredito nem que isso importe, pra falar a verdade. É uma casa como todas as outras… Eu não vou ficar deprimido se o Ó do Borogodó não me faz convite pra fazer roda de samba lá. Como eu não procuro tocar no Bourbon, porque eu acho que meu público não tá lá.

Mas você já tem o porte pra levar público até os lugares em que você vai tocar, não?
Sim, sim. Mas quando não tinha eu dependia muito de achar as casas em que eu seria bem-vindo – não pela casa, mas pelo público. Tem um monte de artista que toca em lugar errado a vida inteira, sabe?

Mudando de assunto, uma das suas músicas que eu mais gosto é a “Come Debbie”, que você gravou com o Killer On The Dancefloor pro we.music. Vocês já se conheciam antes?
Não! Nunca nem tinha cruzado com eles. Foi um processo meio conturbado, até… O projeto tinha um prazo curto e a largada foi dada muito em cima da hora, principalmente pra quem trabalha com criatividade e inspiração. Tínhamos, no máximo, um mês ou dois pra entregar a música pronta e a gente não tinha nada feito. Eu demoro muito pra compor, não sou daqueles que sentam e fazem 80 músicas num dia. Então fico um pouco dependente da minha vontade, do meu estado, se eu tenho um dia cheio ou não… Tinha acabado de lançar o disco, então eu já tinha usado toda a inspiração que eu podia. Não conhecia eles, não sabia direito como funcionava a música deles e o que eles fariam com a minha composição. Trocamos algumas referências, falei o que eu ouvia que tinha um pouco de eletrônico – tipo of Montreal, Hot Chip, Lykke Li… – e pensei em alguma coisa próxima disso. Eu acabei fazendo a música na última semana que a gente tinha pra gravar… Fiz com o pianinho, eles mudaram uns timbres e acrescentaram um monte de coisa que eu não tenho idéia do que seja (risos).

Já se passaram alguns meses desde o lançamento do disco – que, como você falou, usou toda a inspiração que você tinha. A inspiração já stá voltando a aparecer?

Acabei de começar uma música, uns quatro dias atrás. Encontrei uma combinação de quatro acordes que eu achei boa, e aí coloquei um quinto e um sexto acorde e pensei: “Nooooooossa, tá incrível!” Combinou muito. To sentindo essa música chegando… Insisti e não veio, mas é assim que costuma acontecer.

Então ainda vai demorar bastante pra sair material novo?
Ainda nem quero nada novo (risos). Planejo um disco novo só pra 2012… Um álbum tem que ter pelo menos um ano de vida, um disco independente precisa durar tipo um ano e meio. Se eu tivesse uma gravadora não precisaria me preocupar tanto.

Já ouvi dizer que fica bem difícil trabalhar em cima de um disco seis meses depois do lançamento. Você já está sentindo essa diferença?

Na verdade eu tenho sentido o contrário, até, por isso que eu não tenho me preocupado com o próximo trabalho. As coisas foram acontecendo de um jeito legal… Antes do VMB eu entrei na Globo, apareci no Altas Horas e aí começou todo um caminho novo. Depende muito de como você vai construindo a história do disco. Nesse caso, por exemplo, eu sinto que to ampliando meus horizontes cada vez mais. Eu comecei o ano indo fazer show pra 50 pessoas em Curitiba, e agora to fechando tendo que fazer duas noites seguidas em Belo Horizonte pra 300 pessoas cada, porque o lugar não conseguiu comportar todo o público em um dia só. Ainda tá crescendo.

O seu primeiro disco foi escrito com base nas suas dores, sofrimentos e experiências pessoais. Se você fosse compor um disco agora, sobre o que ele seria?
Acho que seria sobre a mesma coisa (risos). Não tenho nenhuma música nova ainda porque eu sinto que só consigo escrever se eu tiver mudado um pouco, dado um passo pra frente internamente. No primeiro disco, eu só fiz “Não Se Vá” quando dei um upgrade como pessoa, amadureci em várias coisas. To completando agora um novo ciclo de vida, que começou quando eu iniciei as gravações do Berlim, Texas.

Encarte de Berlim, Texas

Você se vê vivendo de música um dia?
Eu não vejo ninguem vivendo de música. Não sei dizer quem vive de música hoje em dia, que não seja compondo jingles e tal. Eu ainda to numa fase de almejar que o meu trabalho se pague…

E ainda não se paga?
Ainda não… As viagens são pagas, mas não sei de onde vou tirar a grana pra um próximo disco, por exemplo.

Se uma gravadora aparecesse, você agarraria?
Ah, depende do que seria. Porque as propostas por aí não me parecem muito boas, não. As histórias que eu ouço são de gravadoras oferecendo R$10.000 pra galera gravar disco, mas isso não paga nem estúdio. Tem uma galera que é contra mainstream, que gosta de ser indie e fazer música pra três pessoas. É tão antigo, tão engraçado que tenha tanta gente assim. Todo mundo fala muito “ah, o mercado mudou e as gravadoras não estão sabendo se encaixar”, mas eu fico com a impressão de que ninguém consegue se encaixar, na verdade. As coisas mudaram, mesmo. Nunca achei que meu som fosse comercial, mas ganhei o VMB e, ei, talvez agora o meu som seja comercial, de alguma forma. Tem várias pessoas que estão muito bem inseridas no mercado e que não conseguem enxergar isso. É bem louco, a mesma história da MPB e do indie… Tem muita gente que acha que meu som é pop demais, um pop muito fácil, e muita gente acha que não vai dar certo, que a minha música não vai chegar em ninguém. Vou te dizer uma coisa: é bem complicado ser o Thiago Pethit.