As melhores músicas nacionais de 2014

Reunimos algumas das principais canções lançadas por bandas e artistas brasileiros durante o ano

Arte: Iberê Borges

Depois de ouvir e escrever sobre os principais lançamentos do ano, o Move apresenta, nesse fim de 2014, os melhores momentos que passaram por nossas páginas desde janeiro. Pra começar, vasculhamos o acervo nacional de novidades e selecionamos as 25 melhores faixas lançadas no Brasil neste ano. A lista começa com menções honrosas em ordem alfabética e segue com o ranking principal, organizado através de votações entre alguns colaboradores do site.

 

Menções honrosas:

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André Paste – A Calma

Depois de tocar mashups Brasil afora, André Paste prova que tem fôlego para além de remixes bem humorados. “A Calma”, destaque do álbum Shuffle, traz batidas sensuais, guitarras limpas e vocais marcantes. (Neto Rodrigues)

Anelis Assumpção – Declaração

O samba costuma trazer em sua cartilha certa malícia inerente à história do gênero. Em “Declaração”, Anelis Assumpção usa a voz aveludada, além das obrigatórias cuícas, para subverter ideias em parceria das guitarras de Kiko Dinucci. Improvável e certeiro. (Allan Assis)

Lestics – Um Jeito Especial de Dar Errado

Talvez Olavo Rocha, à frente do Lestics, não tivesse noção de que criaria com “Um Jeito Especial de Dar Errado” o pop rock mais radiofônico (que não chegou às rádios) do ano. Pena não ter obtido o alcance merecido, pois é o tipo de canção fácil e adorável para embalar romances e fazer sucesso. (Iberê Borges)

Pato Fu – You Have To Outgrow Rock n’ Roll

É o momento mais inspirado de John Ulhoa como vocalista do Pato Fu e o ápice do disco mais recente da banda. A letra em inglês, carregada de ironia, questiona se estamos velhos demais para o rock n’ roll. A verdade é que (felizmente) nunca estaremos. (Gregório Fonseca)

 

25. Holger – Boca Suja

Iberê Borges

“Foi tanto que você pediu, não deu pra alcançar / Se é esse motivo pr’eu ir, pela última vez vou ficar”. São descomplicados e tão eficazes versos que representam bem a nova fase que o Holger propôs a si mesmo. Sem piadas internas e de sentimentos mais sinceros, a nova poesia da banda sugere um casamento com canções mais melódicas e arranjos menos circulares, criando novos climas, com mais profundidade. “Boca Suja” é a melhor representação de Holger, terceiro álbum do quarteto que insiste na felicidade de se renovar.

 

24. Nação Zumbi – Novas Auroras

Allan Assis

A Nação Zumbi não é banda de se repetir. Apesar de ter a história aliada a um movimento particular e discernível, mantém na agulha sempre novas possibilidades de criação. Assim é “Novas Auroras”. Como se pode inferir pelo título – intervalo solar e bem humorado na cartilha dos recifenses -, a faixa usa as onipresentes percussões do grupo para, em vez de criar peso, produzir balanço.

 

23. Luziluzia – Alegria

Neto Rodrigues

Entre o stoner do Black Drawing Chalks, a psicodelia do Boogarins e o pop alternativo da Cambriana, se encontra a Luziluzia, banda que despontou no cenário próspero de Goiânia com o debute Come On Feel The Riverbreeze. No álbum, o grupo surge com um revigorante conjunto de faixas ensolaradas. Entre os vários destaques, está “Alegria”, dessas canções sobre relacionamento que devem ser cantadas a plenos pulmões adolescentes em rodinhas de shows por aí.

 

22. The Soundscapes – Snake Charmer

Neto Rodrigues

Poucas vezes no ano o indie rock de guitarras nacional mesclou tão bem riffs urgentes com linhas vocais à la dream pop. As influências de shoegaze, noise e alt. rock dos anos 90 parecem ser evidentes, mas o ponto que deixa o Soundscapes fora da curva é não utiliza-las à exaustão, preferindo criar um som autêntico por cima de suas referências.

 

21. Lurdez da Luz – Mama Drama

Neto Rodrigues

“Mama Drama” abre o incrível disco lançado neste ano pela paulistana Lurdez da Luz. No meio do furacão de rimas e flows da rapper, ainda aparecem arranjos de trompete que deslizam cheios de ginga ao lado de versos de palavras soltas e onomatopeias. Ao fundo, beats sintéticos e percussões africanas seguram a onda até a chegada da próxima paulada do álbum.

 

20. Far From Alaska – Deadmen

Neto Rodrigues

O berro de Emmily Barreto por cima do riff poderoso da guitarra de Rafael Brasil é de fazer qualquer um se espantar e, muito provavelmente, começar a bater cabeça sozinho. No restante da música, o Far From Alaska só surpreende, com breaks pesados e teclados inesperadamente doces. E é só uma pequena amostra do poder de fogo da banda de Natal.

 

19. Banda Do Mar – Pode Ser

Neto Rodrigues

“Pode Ser” é um caminho plausível que o Los Hermanos seguiria caso retomasse ao ofício com a vocação pop de outrora, dosando bem seus arranjos para dias acinzentados com refrão que seria entoado aos prantos por seus fãs. No entanto, Camelo alocou a canção para sua Banda do Mar, e conduz a faixa com sensibilidade apurada até ganhar a companhia dos vocais dóceis de sua amada na metade final. Um dos pontos altos da estreia do trio.

 

18. Maglore – Mantra

Neto Rodrigues

Logo nos primeiros instantes de seu novo single, o trio Maglore joga em nossos ouvidos o maior trunfo da faixa: um grudento “narálarála” (ou algo parecido), feito de forma classuda e nada cafona. O instrumental, com guitarras agudas e ecoadas, se casa perfeitamente com a letra, regida pelo mantra de que “tudo passará” e que celebra versos espirituosos sobre alquimia, mandingas e fitas do Senhor do Bonfim.

 

17. Wannabe Jalva – Miracle

Neto Rodrigues

O som da banda gaúcha Wannabe Jalva é tão único que é difícil achar pares tanto por aqui quanto lá fora. As guitarras geralmente são o destaque, como em “Miracle”, com riffs discretos e complementares, criando algo na linha de um space indie rock com vocais entrelaçados e mixados de forma etérea, flutuando por aí e conduzindo um dos melhores momentos da carreira do grupo.

 

16. Supercordas – Sobre o Amor e Pedras

Bruna Dourado

Cheia de efeitos, a psicodélica “Sobre o Amor e Pedras” chegou para anunciar o novo disco do grupo carioca Supercordas, que deve sair já no ano que vem. Nela, os instrumentos parecem passear pela música e logo culminam em uma coleção rica de sons, que se juntam às ótimas letras e aos vocais despreocupados. O resultado é uma faixa peculiar e surpreendente, lotada de detalhes esperando para serem descobertos.

 

15. Muñoz – Hey Ya

Bruna Dourado

A classuda “Hey Ya” é uma das faixas do disco Nebula, primeiro do duo mineiro Muñoz. A música chega com guitarras ruidosas e percussão certeira, que logo se reúnem a vocais arrastados e ganham ares que só poderiam vir da ótima mistura entre stoner rock, blues e uma pontinha de psicodelia.

 

14. Câmera – Till Life Do Us Apart

Neto Rodrigues

Em “Till Life Do Us Apart”, os belorizontinos do Câmera criam uma canção relativamente longa e não se perdem no meio do caminho. O começo é doce e com uma guitarra tranquila sendo atormentada por ruídos de outra. Sem refrãos muito bem definidos, a faixa segue alternando força controlada com vocais serenos e melodias que poderiam estar em algum álbum da dupla californiana Pinback.

 

13. Onagra Claudique – Estélio Prates, O Literato

Iberê Borges

A dupla Onagra Claudique permitiu que viesse alguém e metesse o dedo em suas composições – e isso parece ter feito bem demais. Além da inteligência dos integrantes Roger e Diego para elaborar o tema, Fabio Pinczowski e Mauro Motoki destrincharam, como produtores, todas as possibilidades para contribuir na construção das canções. “Estélio Prates, O Literato” é um dos mais bem sucedidos momentos dessa experiência e driblou outros momentos mais codificados do disco. De continuidade ininterrupta e poesia simples sem repetição, é com frescor que a história de um sujeito pouco socializável é contada, explorando referências e inseguranças pessoais tão comuns.

 

12. The Soundscapes – Shooting Stars

Neto Rodrigues

Cantando em inglês, o The Soundscapes assume todas suas influências externas em pouco mais de três minutos, com a faixa que abre seu EP mais recente. Entre guitarras barulhentas e vocais abafados, o quarteto paulistano consegue soltar fagulhas pop mesmo emulando arranjos do circuito alternativo. Em “Shooting Stars”, a banda aumenta as distorções e acelera o ritmo para versar sobre uma menina com estrelas cadentes em seus olhos.

 

11. Câmera – Whatever Works

Iberê Borges

Se “profissionalismo” não fosse uma palavra que representasse algo tão chato, seria perfeita para descrever o poder de “Whatever Works”. Cada coisa está no lugar correto: da composição que explora o clima ideal ao arranjo perfeitamente elaborado à mixagem mais invejável da música nacional. Há algo no contraste entre o violão solto e a bateria certeira que não há como descrever. Sentimento que essa música desperta é o que faz “profissionalismo” parecer algo tão cool.

 

10. SILVA – Janeiro

Iberê Borges

Lúcio Silva não erra quando procura crescer. “Janeiro” é um desses momentos em que ele se permite ser a mais criativa mente do pop nacional. O que é aplicado durante toda a canção vai além do que é bem-vindo ou não para algum cenário específico da música. Não se trata das mais corretas influências estrangeiras ou o apego ao que é nitidamente brasileiro; a construção é universal, não se ancora em um só porto. Se o ponto de partida é aproximação contida, a chegada é uma explosão que pouco estamos acostumados a ouvir de forma tão concisa. A linguagem é fácil e essa é a melhor forma de SILVA se fazer imperdível.

 

09. Racionais MC’s – Quanto Vale o Show

Iberê Borges

O tema da vitória de Rocky Balboa, a voz inconfundível de Sílvio Santos, um riff de guitarra poderoso que costura de ponta a ponta e a produção de DJ Cia é “apenas” o pano de fundo para a história de um adolescente pardo, vivendo as dificuldades e os prazeres do Capão Redondo em São Paulo (“… a última a abolir a escravidão”), cercado de oportunidades de se construir e se destruir. Uma história irresistível em um ritmo empolgante, que renova a linguagem do Racionais MC’s mesmo que por um breve momento. Uma narrativa confessional do maior MC que nosso país teve o prazer de produzir e ver crescer: Mano Brown.

 

08. Juçara Marçal – Ciranda do Aborto

Allan Assis

“Ciranda do Aborto” toma a rabeira do cântico leve de “Odoya”, faixa anterior do disco de estreia da cantora (mas não novata) Juçara Marçal e transforma renascimento em morte brutal. Começa lenta, moldando-se ao redor da voz de Juçara para se abrir sombria e esquizofrênica nos dissonantes instrumentos de corda da faixa. De uma beleza aterradora, a voz de Marçal carrega poder de interpretação absurdo, capaz de, apenas com sua entonação, fazer as vezes de instrumento trazendo dor e sofrimento na canção de despedida.

 

07. Lava Divers – Done

Bruna Dourado

Guitarras distorcidas e vocais otimistas marcam “Done”, primeiro single da banda mineira Lava Divers. A faixa faz parte do EP que saiu no final de outubro, levando o nome do grupo, e traz versos ruidosos e ao mesmo tempo cativantes. As principais influências ficam por conta do shoegaze e do indie rock, mas é a atmosfera lo-fi que arremata o som e garante uma das melhores músicas nacionais do ano.

 

06. Banda Do Mar – Hey Nana

Gregório Fonseca

“Hey Nana” é a música que melhor representa o clima do álbum de estreia da Banda do Mar. É daquelas faixas fáceis, que agradam os ouvidos na primeira audição e alegram um passeio de carro no fim de tarde. A letra é simples, direta, (aparentemente) despretensiosa e super acessível. Em “Hey Nana”, Marcelo Camelo parece ter encontrado a fórmula da canção pop perfeita.

 

05. O Terno – Eu Vou Ter Saudades

Iberê Borges

“Eu Vou Ter Saudades” é um ensaio da grande banda que O Terno pode vir a ser muito em breve. Longe dos atrapalhados atropelamentos de ideias sequenciais aplicados em composições, pelo qual o trio ficou conhecido e muitas vezes admirado, o nosso quinto lugar mostra uma sutileza e um amadurecimento gratificante. Uma verdadeira canção de refrão tocante, com sentimentos explorados de forma simples e um Hammond impiedoso de cortar a alma.

 

04. Criolo – Esquiva da Esgrima

Allan Assis

O talento de Criolo se fez mais claro à crítica e público quando o paulistano, ainda com certo desconforto, passou também a cantar em suas faixas. “Esquina da Esgrima” é bom exemplo da versatilidade que o rapper desenvolveu ao longo de seus registros. Rimando sobre como o dinheiro corrói as relações humanas na letra, canta em exercício pessimista a analogia entre as facilidades do poder e o isolamento emocional que ninguém prevê se aproximar enquanto acumula bens, guiado pela sempre competente produção instrumental de Marcelo Cabral e Daniel Ganjaman ao fundo.

 

03. ruído/mm – Cromaqui

Neto Rodrigues

A média de duração das faixas do novo álbum do ruído/mm atravessa os seis minutos. “Cromaqui” é exceção e consegue, com um terço desse tempo, dizer muito – mesmo sem nenhum vocal aparecer até seu respiro derradeiro. Ligeira e empolgante, a canção tem recursos ágeis e guitarras que dão corpo à massa sonora, incrementada em seu ato final por um estridente teclado. Pena que tudo desaparece quando você menos espera – mas talvez esteja aí a beleza brutal da canção.

 

02. Nação Zumbi – A Melhor Hora da Praia

Allan Assis

A voz de Marisa Monte tem qualquer coisa de hipnótica em seu timbre. A escolha da cantora nas vocalizações da ciranda “A Melhor Hora da Praia” junto à dureza na voz de Jorge Du Peixe remontam milhões de cenários no imaginário de quem ouve: homenagem à Iemanjá, o trabalho diário de um pescador que ama o mar ou a alegoria do canto de uma sereia – a interpretação é livre. A beleza nos detalhes de percussão e violinos da faixa, incontestável.

 

01. Criolo – Cartão de Visita

Allan Assis

Vez por outra uma piada de internet infla demais e toma o espaço de quem a criou involuntariamente. Em entrevista ao ator Lázaro Ramos, a retórica de Criolo falando sobre os diferentes efeitos do capitalismo virou meme nas mãos do público. Em vez de se levantar com ego ferido contra a todos, em “Cartão de Visita” o rapper contextualiza o discurso, ironizando a rica sociedade paulistana, as exceções de classes mais baixas que ao ganhar mais dinheiro passam a arremedar o topo da pirâmide e até quem o chamou de indecifrável. Em pouco mais de três minutos, cria um de seus maiores acertos pop da carreira, com ajuda da sempre irresistível voz de Tulipa Ruiz no refrão, musicando a sensação de transformar gracejo em ótima música.

3 Comentários para "As melhores músicas nacionais de 2014"

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