DJ Rogerio Real lança a terceira mixtape da série Trip Hop Sessions. Fizemos algumas perguntas para ele. Leia a entrevista!

Aproveitando o lançamento da mixtape Nowhere, aproveitei pra trocar uma ideia com o DJ Rogerio Real sobre o futuro da série de mixtapes Trip Hop Sessions, além de resgatar um pouco das origens do DJ, falando sobre antigas festas, cinema e, claro, Trip Hop.

Em primeiro lugar, por que o nome “Nowhere” e não Trip Hop Sessions III? É uma maneira de expressar algum tipo de desligamento com as mixtapes anteriores?

O nome Nowhere é uma homenagem ao UNKLE, que abriria essa mixtape com a faixa de mesmo nome. Mas como uma outra faixa do grupo abre a TripHopSessions e eu não consegui encaixar nenhum outro som deles, aproveitei o nome. E desisti do título TripHopSessionsIII porque um belo dia eu estava assistindo a um filme e me passou pela cabeça que a maioria dos filmes que marcaram a minha infância (que eu gosto) e que tiveram uma parte três, o terceiro nunca era bom. Aí desencanei de nomeá-la como TripHopSessionsIII e meio que segui a ideia de “O Silêncio dos Inocentes”. E é sério!

Fale um pouco sobre a escolha das principais faixas do set pra gente. Como ela é feita? As canções refletem o seu estado emocional? Como você elabora a sequência da mixtape?

Toda vez que vou fazer alguma coisa com música, antes de qualquer coisa eu preciso ter um certo apego, ou seja, tem que ter amor porque senão não rola! Aí depois disso escolho alguns discos, aleatoriamente, pra ouvir durante um tempo, aí separo os que eu me apaixonei, gravo uma sequência, masterizo, produzo a capa e subo tudo na minha página do Soundcloud para depois divulgar nas redes sociais. Nomes como Massive Attack, Portishead e Tricky dificilmente faltarão em alguma mixtape que eu faça, seja pela importância de ambos para o trip-hop como também por considerá-los indispensáveis em qualquer ocasião, independentemente do estilo musical. O Gui Boratto por exemplo, no disco Renaissance, tem uma faixa do Tricky, “Past Mistake”, que ficou muito classe! Nessa mixtape também priorizei artistas que ainda não tinham aparecido nas edições anteriores (Cibo Matto, Smoke City, DJ Krush, Gus Gus, Cirkus), e que tiveram a ver com alguma coisa do momento atual (como foi o caso do A Tribe Called Quest – lembrando que, recentemente, Q-Tip veio fazer show no Brasil) e criei alguns interludes (misturar pedaços de músicas como “Fuga número 3” dos Mutantes com DJ Cam e Wax Poetic [o vocal feminino é da Goldie com a faixa “Inner City Life”]).

Sobre a capa da mixtape… De onde veio a ideia?

Tem um filme da década de 1990 chamado “Nowhere”, dirigido pelo diretor Gregg Araki (que também produziu “Doom Generation” e que com certeza deve ser fã da crew Odd Future), cuja trilha sonora é muito boa. (tem Catherine Wheel, Curve, 311, Suede, Massive Attack, entre outros). Aí eu fiz a mesma capa mantendo inclusive, se você reparar, o conceito original de cada foto: a Betty Gibons (Portishead), a Nina Moteiro (Smoke City), Daddy D e 3D (Massive Attack), as meninas do Cibbo Matto e o Tricky, todos de alguma forma seguem o conceito da arte original. E eu tirei o verde porque sou corinthiano!

Arte original do filme “Nowhere”

Um dos recentes assuntos mais comentados da internet e da imprensa em geral é a proteção de direitos autorais sobre músicas, filmes e literatura. Como um DJ lida com esse assunto em pleno 2012? Existe comercialização ou algum tipo de licença em torno das faixas executadas por vocês?

Em 2009 eu fiz um set de House em que comprei todas as músicas. Essa foi a única vez até hoje. Mas se tiver que comprar o disco em mp3 eu compro numa boa, mesmo preferindo vinil. Hoje em dia alguns artistas e gravadoras que lançam discos no formato vinil costumam incluir um código no produto para você baixá-lo de graça em mp3. Caribou e Autolux são alguns dos exemplos. Eu gostaria muito de colocar um link direto pra cada artista que esta na mixtape lá no meu Soundcloud, assim qualquer um poderia adquirir as músicas – porém o meu tipo de conta não permite isso. Gostei muito do fato do Radiohead ter disponibilizado as músicas de seu último disco para download gratuito, com a ideia de que você pudesse escolher a quantia que achasse justa a ser paga. Isso abriu o olho de muita gente pra esse novo mercado: a compra de MP3.

Você é um dos organizadores da bem-sucedida Protection (festa dedica ao trip hop que rola mensalmente em São Paulo no Caos Club Augusta). Existe alguma razão para o sucesso desse tipo de evento na cidade, levando em conta o Downtempo e as batidas pouco convencionais para uma balada paulistana? Você começou tocando Indie-Rock, certo?

Muito obrigado pelo bem sucedida! E se ela é bem sucedida, acredito que um dos motivos é porque nunca houve pretensão de que ela fosse bem sucedida… É uma festa que nasceu de um insight e tudo o que eu faço é pelo completo apego que tenho a ela – tanto eu quanto o DJ Thiago Sabota, meu sócio na Protection. Posso garantir que nunca imaginávamos que alguém chegaria pra gente afim de conversar sobre o disco novo do DJ Shadow, ou pedir pra tocar Massive Attack, ou como estão ansiosas para a próxima edição. Os amigos também foram fundamentais, seja de forma direta, indo a festa, ajudando na divulgação ou de forma indireta, como foi o caso do mestre DJ Magal, que depois de soltar uma mixtape de trip-hop/downtempo/jazz trocou e-mails com a gente e nos ajudou muito! E sim, eu vim do rock, por vias da minha eterna madrinha Erica de Freitas, que me colocou de residente na festa SOUND em 2003. Mas de lá pra ca muita coisa aconteceu, até que em 2010 o disco Opera do duo Tosca caiu na minha mão e me empolguei. Tirei a poeiras dos discos do Portishead, do DJ Shadow, do Tricky e da clássica coletânea Kruder & Dorfmeister Sessions (vale ressaltar que foi daí que a ideai do nome TripHopSessions saiu daí) somados à ida ao show do Massive Attack para eu passar a acreditar que poderia tocar esse estilo porque eu já estava vivendo trip-hop naturalmente. A recompensa vem em momentos como quando saí correndo do palco do último show do Sonic Youth no SWU até chegar na tenda em que o Gui Boratto estava tocando e ser contemplado com um remix feito pelo próprio de “Unfinished Sympathy”. Ganhei um Oscar nessa!

Para terminar, fale um pouco sobre seus projetos futuros, seja na noite como agitador cultural e/ou nos sets, como DJ.

A última música da mixtape é “Murder Weapon” do Tricky. Essa faixa, além de ser uma versão moderna de um som do jamaicano Echo Minottlsso, de jeito algum se parece com as coisas que ele (Tricky) lançou até hoje, porque é uma musica bem rock e o que me inspirou a colocar uma faixa dessas numa mixtape que é inicialmente de trip-hop foi o espirito de inovação que há nela. E esse tipo de inspiração é o ponto de partida pra minha próxima mixtape, próxima discotecagem, próxima festa – ou seja, inovação. Também faço uma outra festa chamada Benzetacil, junto com o DJ Bezzi e o DJ Thiago Sabota (essa festa, inclusive, já contou com o nosso amigo Fael como convidado, tocando só com compactos de sete polegadas) e vamos investir nela. Às vezes sou o DJ do rapper Doncesão, também. Por fim, penso em produzir trilhas sonoras para lugares específicos, além de outros projetos próprios, para quem sabe um dia ter isso como minha principal fonte de renda.

Depois do papo, que tal ouvir a mixtape Nowhere? Caso goste, o download gratuito está à disposição. Enjoy.

  • “Trick Kid”! Caralho!! Como eu gostava de assistir esse clip esquisito, nas madrugadas da MTVLatina, no programinha Nacion Alternativa, com a vj Ruth…
    Tinha também o video agoniante da minininha loira – “All Mine” – fazendo playback, eu achava engraçado, véio!
    Pero my cardio derretia mesmo era com Morcheeba! P.q.pariu…ô tempo bom, sÔ!!!

  • Pareceu a voz da Elizabeth nessa musica do Massive A. Eu era apaixonada pelo video do bebezinho, sabe?!
    Muito bom o projeto do dj Rogério.