De Lá Até Aqui

O Móveis Coloniais de Acaju é puro carisma e competência. Sabe casar como poucos os dois atributos. Quem esteve de olho no cenário musical brasileiro dos últimos anos conhece bem. Pode não concordar com a minha opinião sobre a alta competência da banda, mas é difícil dizer que não se trata de uma banda que possui um poder de conquista pelo carisma. Com integrantes sempre simpáticos e dispostos, a banda fez de seus shows espetáculos à parte. Os discos que guiavam suas apresentações também possuíam esse poder – Idem, de 2005 era mais cru, mas tinha vida própria e disparava uma sequência de faixas promissoras e originais, e C_mpl_te, de 2009, mostrava o amadurecimento da banda que ainda parecia brincar de fazer música (pela facilidade de bons resultados, não por displicência).

Não cabe aqui fazer uma descrição da mistura do ska com sonoridades do leste europeu que qualquer um faria para apresentar a banda. Até porque o grupo não quer mais fazer isso em De lá Até Aqui, seu novo álbum. O Móveis também não parece estar com o mesmo gás de anos atrás (em estúdio, ao menos). Pisando no freio, o novo lançamento tenta apostar em algo que alguns podem chamar de evolução, onde eles procuram um formato mais global em suas criações. Onde as músicas se encaixam melhor no formato rádio (e não há nenhum problema nisso, veja bem) e apostam em um charme diferente do que a banda anteriormente apostava. Eu enxergo de outra forma, e essa forma põe em cheque a primeira afirmação que fiz nesse texto: o Móveis não parece mais tão carismático ou competente. E isso me incomoda muito.

O carinho que tenho pela banda é resultado desse carisma todo. É consequência de toda competência que, pra mim, parecia inabalável. Mas, obviamente, não é. Fica difícil entender o porquê de algumas escolhas, mas é totalmente compreensível que o artista precisa se movimentar, e as estradas escolhidas talvez venham a nos desagradar. E foi o que aconteceu. De lá Até Aqui é morno e mais linear do que um disco do Móveis Coloniais de Acaju deveria (merecia) ser. De suas 14 faixas, poucas escapam, infelizmente, de serem sem graça – característica tão perigosa para uma canção. O que antes parecia querer te tirar do sofá e balançar o corpo até cansar, agora parece querer carregar o ouvinte até seu Facebook e postar os trechos de letras. Isso é problema? Não se for limitado só a isso, e é o que acontece em parte do álbum.

Seria a ausência de Leonardo Bursztyn, compositor dos principais hits do primeiro disco, e que já não era da banda muito antes de ela entrar no estúdio para gravar seu segundo disco, que fez a banda desistir de insistir em sua agradável fórmula para o terceiro álbum? Como poderia Carlos Miranda, o produtor, acertar tão em cheio no lançamento de Sacode, do Nevilton, e fazer algo tão pálido nesse trabalho com a banda de Brasília? Perguntas assim não são respondidas, mas mais questões como essas são criadas quando você se depara com momentos que beiram o vexame, como “Saionara”, canção de métrica estranha e letra que nos traz um lembrança da terrível banda P.O. Box, e “Amor é Tradução”, balada desajustada de refrão que nem Fernando Anitelli (Teatro Mágico) teria coragem de fazer (e o problema aqui não é ser brega; o brega é ser problemático, nesse caso). Em alguns casos, como “Beijo Seu”, que parece ter fugido das mãos de Nando Reis, não dá para chegar a sentir vergonha, mas não dá também para esboçar sorriso.

Tentando ignorar outros momentos deficientes do álbum, vale a pena destacar outros que deram certo. Dentro do formato tradicional já amigável da banda, “Vejo em teu Olhar” é o tipo de resultado que exibiria um amadurecimento razoável, e “Longe É Um Lugar” não convence, mas se mostra mais disposta – lembra Raul Seixas, sendo um rock mais genuíno (mesmo que de arranjo diferenciado). Das “baladas” bonitas que a banda já fez anteriormente, encontramos irmãs na lindíssima e tocante “Não Chora” e em “Campo de Batalha” que aposta em um ambiente mais épico. Dentro dos “novos momentos” da banda, “Amanhã Acorda Cedo” é gostosa com sua levada soul.

As faixas restantes, que procuram, ou não, nos lembrar da banda que já conhecemos, se misturam e se confundem pela falta de destaque que possuem. A linearidade, já citada, nesse caso serviu para retirar o brilho e o tempero do grupo. 14 faixas se tornaram muita responsabilidade para uma banda que não tinha nem dificuldade para criar cirandas de centenas de pessoas em ambientes que mal cabiam essas pessoas amontoadas umas nas outras – de repente o desafio pareceu grande demais para quem não tinha, até então, apresentado nada que não fosse uma escalada competente e contínua. Esse é o crime da decepção.

Mas o Móveis Coloniais de Acaju “apenas” falhou em De lá Até Aqui. Que o carisma e a competência dos shows mantenha o cenário agitado para que eles consigam voltar em breve para retirar toda essa dúvida que pintou. Mas sem pressa. Da próxima vez, que seja certeiro. Que seja Móveis.

  • Mitchell

    Quando Iberê Borges e Cleber Facchi concordam que um disco é ruim, é por que ele realmente é ruim. Divertido ver os dois comparando Saionara com PO Box, e é mesmo hahahaha Acho que até agora só os bunda-moles do Monkeybuzz tão falando bem desse disco horroroso. Saudades de quando a Móveis tinha alguma relevância.

  • Amário

    O que me choca é ver uma banda com um potencial monstruoso pra deixar a sua marca na música e que era colossalmente criativa e divertida se “perder” assim. O mais engraçado é que nunca vi a necessidade de eles cederem assim tão fácil pro pop barato “radiofônico”, já que o Ska que eles faziam já era pop o suficiente, carismático ao extremo (tal qual a própria banda), com um humor crítico e sutil, e ainda por cima passava a anos luz da mediocridade. De Lá Até Aqui diz: “muito prazer, eu sou você, amanhã”… Ouvindo esse disco dá pra sentir a competência dos caras ser desperdiçada. Boa sorte a eles nos programas de auditório e que eles se tornem namoradinhos do Brasil. Ao menos eles ainda estão muito melhores que muita coisa que há por aí tocando nas rádios: essa acessibilidade sonora pode ser boa pra quem sequer sabe o que é Ska. Móveis e Som Livre, a gente (não) se vê por aí. Que pena.

  • Excelente post, Iberê. Resumiu bem o que achei do novo trabalho do Móveis.

  • Azaléia Hanks

    banda diluída?

  • Carlos

    O pior é que o show deles seguiu o mesmo caminho do CD novo. Fui nos 2 shows no Ibirapuera deste final de semana e nos 2 só foram tocadas 4 músicas antigas, o resto é só o CD novo (que pra mim só Campo de Batalha está à autora do trabalho anterior da banda).
    Até Copacabana que era a marca registrada foi colocada de lado (ela tirou férias segundo o vocalista. Acho que também vou tirar férias dos shows até tudo voltar ao normal)

  • francisco

    que bom pensei que era só eu!já vi shows incriveis do Móveis e me pareceu apagado desta vez!cadê a maluquice!!
    que fazia vc sair rouco,cansado e feliz?! volta Móveis!!

  • Sérgio

    Eu com concordo em gênero, número e grau, como dizem.
    Cadê o Móveis?

    VOLTEM!

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