Wild Beasts - Present Tense

Wild Beasts
Present Tense

Domino Records

Lançamento: 24/02/14

“Wanderlust” é o grito que abre Present Tense, novo álbum do precioso quarteto de Kendal, na Inglaterra, Wild Beasts. O incômodo berro que vem em forma de sussuro diz: “Don’t confuse me with someone who gives a fuck / In your mother tongue, what’s the verb “to suck”?”, e ecoa nas faixas seguintes, ficando cada vez menos denso ao longo da obra. A canção abre o disco como um forte golpe, abordando diferença de classes sobre uma cama de sintetizadores, e te carrega para um incômodo caminho, onde os temas presentes, como de costume para a banda, não cabem assim tão bem no universo pop: política, o culto ao corpo, perda de um animal e a sensualidade que não seduz o ouvinte, são os riscos que assumem os compositores que, ambiciosos, fazem músicas no verdadeiro sentido da obra de arte.

O risco de soar excessivamente pretensioso faz com que o Wild Beasts ande sobre uma fina linha como se fosse cabo de aço. E o peso que carrega cada canção só faz eles se equilibrarem mais, a cada percussão marcante, sintetizador mais presente, linhas abafadas de baixo, repetitivos dedilhados de guitarra e, principalmente, nas sempre impressionantes vozes de Hayden Thorpe, que explora o lírico e falsete com originalidade, e Tom Fleming, responsável pelo grave mais aveludado e admirável da nova geração de cantores. Mas há um fator que faz a banda flutuar mesmo com todo peso que carrega em suas melodias e letras: o talento para explorar o silêncio.

O grito de “Wanderlust” se dissipa nesse silêncio, permitindo que a tensão e a provocação continuem menos agressivas ao longo das dez faixas restantes. A sombria performance dos sintetizadores oitentistas na marcial batida da faixa de abertura já ganha um descanso em “Nature Boy”, onde os elementos são praticamente os mesmos, porém sem a mesma urgência. Tom canta “Your only joy, only bliss / Your lady wife around his lips” num clima não muito amigável. Em “Mecca”, Hayden faz sua leitura do R&B com certo balanço.

“Sweet Spot” é um resquício do que sobrou da banda mais orgânica de Two Dancers com a inserção do sintetizador que invade o meio da faixa, representando um pouco a transição do então álbum de 2009 pro seu sucessor de 2011, que já possuía muitas das características presentes no novo lançamento, exemplo em “A Simple Beautiful Truth”, canção de refrão mais fácil mas sem um grande gancho para emplacar. Canções mais melancólicas como “A Dog’s Life”, “New Life”, essa de discurso mais otimista, e a dolorosa “Pregnant Pause” brilham sem o interesse de manter esse brilho aceso por muito tempo – boa intensidade por menor duração.

“Palace”, tema que fecha o álbum, possui a leveza que pouco se esperava na abertura da obra. Porém, apesar de inesperada, causa um ótimo efeito e é muito bem recebida. O contraste propõe um início, meio e fim em um álbum que misturou tantas oportunidades em sua sonoridade e até refletiu no caleidoscópio da arte de sua capa. É dada uma homogeneidade àquilo que é tão heterogêneo. E a sensação para isso é de missão cumprida.

Sem grito por atenção, o Wild Beasts caminha nas sombras sem saber bem como procurar as luzes que iluminavam tanto o rock alternativo inglês e que agora se foca em poucos expoentes. A pretensão de criar arte não se conecta com a de criar hits nem de encher estádios no caso desse quarteto. Present Tense não é um álbum inesquecível, mas é desafiador e provocador sem precisar ser complexo. O grito aqui é pela música e por um pouco de mudança.

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